Registros


4. registro de Odorico Tavares

"Com os tocadores ao seu lado o mestre levanta a voz, iniciando o canto. Os jogadores, em número de dois, estão de cócoras, à sua frente. é lenta a toada que o mestre canta, como solista e já os capoeiras acompanham-no em movimentos mais lentos ainda, como cobras que começam a mover-se: olhe o visitante atentamente, como aqueles homens nem ossos tivessem, seus membros parecem que recebem um impulso quase insensível, de dentro para fora. O mestre canta os últimos versos do seu solo e o coro responde, os instrumentos respondem fortes, o ritmo violento, as vozes altas:
Aruandê
ê, ê
Aruandê
Camarado

Já os capoeiras se expandem em gestos, em movimentos, em baile que será sempre surpresa. É dança que é luta: golpes, negaças, rasteiras, numa surpreendente beleza de movimentos. Os homens não se tocam para defesas e ataques que se sucedem em imprevistos de segundos. É um milagre em que a violência de um ataque resulte em outro ataque, em que ninguém se toca, ninguém se fere, ninguém se agride. É combate, é baile que dura horas. Estão suados, mas jamais há o menor ar de cansaço. Pode ser uma criança, pode ser um jovem, pode ser um velho: a resistência é a mesma. No mundo da capoeira não há possibilidade de derrota pelo cansaço físico.
...
Desde os primeiros tempos da escravidão, vindo de Angola, mas como ato de simulação, escondendo, por trás dele, os verdadeiros intuitos dos seus componentes de se adestrarem para a luta, para o que der e vier. Os capoeiras brincando e jogando, nenhuma suspeita poderiam causar aos seus donos. Os negros de Angola já vinham senhores de sua agilidade, de sua força física, postas à prova em mais de uma revolta, em mais de um conflito, em mais de um incidente."

Carybé - desenhoCarybé


Fonte:
Odorico Tavares. Bahia - Imagens da terra e do povo. 3 ed. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1961. Com Ilustração de Carybé p.181 (reprodução).